GoPro é vendida por US$ 285 milhões e vai mirar IA e defesa, mas promete manter as câmeras

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Registrada no estado americano de Delaware em 31 de agosto, a Starman Optical fechou no dia seguinte a compra da GoPro por US$ 285 milhões. É uma empresa de capital fechado e sem histórico que permita avaliá-la. Nasceu ontem, literalmente.

Pelo acordo definitivo, anunciado nesta terça-feira (1), os acionistas da fabricante de câmeras recebem US$ 1,14 por ação e seguem com cerca de 10% da companhia combinada. A dívida de US$ 92 milhões será quitada na conclusão do negócio.

Nenhuma das duas empresas fala em encerrar a linha de câmeras. O comunicado promete suporte integral aos produtos de consumo e à plataforma de assinatura e nuvem, ao mesmo tempo em que aponta a nova empresa para data center de inteligência artificial, defesa e aeroespacial.

MISSION 1 PRO ILS, o produto mais recente anunciado pela empresa – Divulgação/GoPro

Os termos da fusão entre GoPro e Starman Optical

Todas as conversões usam a cotação comercial desta terça, com o dólar a R$ 5,15. Os dois conselhos de administração já aprovaram o negócio, que ainda depende do aval dos reguladores e dos acionistas da GoPro. Confira os números apresentados:

ItemO que ficou acordado
Valor por açãoUS$ 1,14, cerca de R$ 5,87
Total em dinheiroUS$ 285 milhões, cerca de R$ 1,47 bilhão
Dívida quitadaUS$ 92 milhões, cerca de R$ 474 milhões
Fatia que sobra aos acionistasCerca de 10% da nova empresa
Listagem em bolsaSegue na Nasdaq, com o código GPRO
PrazoConclusão até o fim de 2026

Chama atenção o desenho escolhido, porque não é uma compra que tira a empresa da bolsa. É uma recapitalização, com dinheiro entrando, dívida saindo e o acionista antigo mantendo uma fatia pequena do que sobrar.

Quem assessorou a GoPro foram o banco Houlihan Lokey e o escritório Fenwick & West.

Quem é a Starman Optical, a compradora da GoPro?

Dona da Starman Optical, a Starman Holding é um grupo diversificado que já circula na prateleira de acessório de celular, porque controla as marcas Incase, Incipio e Griffin.

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A parte de fotônica é recente, com a Starman New Photonics criada em 2025 e uma fábrica sendo erguida em Nova Jersey.

O produto dela são transceptores ópticos, componentes que fazem dados viajarem por fibra óptica dentro de data center.

É uma peça crítica na infraestrutura de inteligência artificial, e fabricar em solo americano virou argumento de venda desde que o governo dos Estados Unidos passou a restringir hardware estrangeiro em setores estratégicos.

Charles Tebele – Divulgação/Starman Holding

“Óptica e imagem avançadas são essenciais para a IA e para a segurança nacional.”

Charles Tebele, presidente-executivo da Starman Holding

À primeira vista, patentes parecem ser o alvo. O comunicado destaca o portfólio de mais de 2.500 patentes americanas que a GoPro acumulou em 24 anos, e a lista de mercados citados pela compradora tem Data Center, defesa, governo, robótica e aeroespacial, nenhum deles com uso óbvio para uma câmera presa ao capacete.

A trajetória da GoPro, de US$ 2,95 bilhões a US$ 285 milhões

O nome da marca nasceu de uma piada entre surfistas, porque virar profissional era o único jeito de aparecer filmado na água, e a linha ganhou o nome HERO justamente para deixar o dono do vídeo com cara de protagonista.

Em 2018 a empresa comemorava 30 milhões de câmeras vendidas desde a fundação, em 2002.

AnoO que aconteceu
2002Nick Woodman funda a Woodman Labs depois de uma viagem de surfe à Austrália
2004Vende a primeira câmera, a HERO de filme 35 mm, e fatura US$ 150 mil no ano
2006Lança a Digital HERO, com dez segundos de vídeo, e chega a US$ 800 mil
2014Abre capital na Nasdaq a US$ 24 por ação, avaliada em US$ 2,95 bilhões
2016Lança o drone Karma, recolhido pouco depois por falha de energia em pleno voo
2018Encerra o negócio de drones, corta mais de 20% do quadro e contrata banco para estudar venda
2019Insiste em vídeo 360 graus com a MAX, sucessora da Fusion
2020Demite mais de 200 pessoas na pandemia e migra o foco para assinatura e venda direta
2024Fecha o ano com receita de US$ 801 milhões e prejuízo de US$ 432 milhões
2026Demite 23%, admite risco de encerrar atividades e aceita a fusão

É possivel dizer que, entre em altos e baixos, tivemos duas grandes apostas erradas da empresa. O drone Karma saiu em outubro de 2016, foi recolhido por desligar sozinho durante o voo e voltou remendado em 2017, antes de ser encerrado de vez em janeiro de 2018, no mesmo pacote que cortou mais de 20% dos funcionários.

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Vídeo em 360 graus também não emplacou, nem com a Fusion nem com a MAX. Restou o que a GoPro sempre soube fazer, que é câmera de ação para esporte, num mercado que a DJI e a Insta360 passaram a disputar com preço agressivo.

O ano que levou a GoPro a aceitar o negócio

Começou em abril de 2026, quando a empresa demitiu 23% do quadro, terceira rodada de cortes em menos de dois anos, com custo de até US$ 15 milhões em rescisões e planos de saúde. No mesmo mês ela anunciava a linha MISSION 1, aposta de reposicionamento com sensor de uma polegada e vídeo em 8K.

Em junho veio o alerta mais duro, quando a companhia avisou aos acionistas que poderia encerrar as atividades sem dinheiro novo. No mês seguinte, o fundador e presidente-executivo Nick Woodman emprestou US$ 20 milhões do próprio bolso para segurar a operação.

No fim de agosto, o youtuber Markiplier comprou US$ 9,3 milhões em ações e virou o maior acionista individual da empresa, com 8,5%. A informação é da Bloomberg, e o papel subiu com a notícia antes de a negociação ser suspensa pelo anúncio da fusão, um dia depois.

A GoPro valia US$ 2,95 bilhões quando estreou em bolsa, em 2014, e está sendo comprada por US$ 285 milhões doze anos depois. É menos de 10% daquilo que já foi.

Leia também:

O que muda para quem já tem uma GoPro em casa?

O comunicado é explícito ao dizer que a empresa (ao menos por enquanto) vai continuar dando suporte total aos produtos de consumo existentes e à plataforma de assinatura e nuvem, onde muita gente guarda vídeo antigo. Nada muda de imediato para quem usa uma HERO ou uma MISSION 1.

A linha MISSION 1, vendida no Brasil desde maio, segue no catálogo, e a compradora fala em investir num portfólio mais amplo. Só que promessa de roteiro de produto não vincula ninguém, e a lista de mercados que a Starman quer atacar não passa por câmera esportiva.

Por enquanto, a fusão resolve o problema mais urgente da fabricante, que era a dívida. O que ela faz com a divisão de câmeras vai aparecer no primeiro roteiro de produto sob o novo dono, e não antes disso. Você ainda compraria uma GoPro sabendo disso?

Fonte(s): GoProTechCrunch e PCMag (com informações da Bloomberg)

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