O codec AV2, sucessor direto do AV1 e desenvolvido pela Alliance for Open Media (AOMedia), entrou na reta final de desenvolvimento e deve ter sua especificação 1.0 publicada oficialmente em 29 de maio de 2026.
A informação aparece em um commit recente no repositório AVM (AOMedia Video Model), no GitHub, que atualizou o changelog do projeto com a linha “2026-05-29 v1.0.0 – First released version of AV2”.
A alteração foi notada por usuários do Reddit e indica que o padrão de compressão de vídeo aberto e livre de royalties está prestes a sair do estágio de rascunho. A data, no entanto, chega cerca de seis meses depois da meta original anunciada pela própria AOMedia, que previa o lançamento final ainda no fim de 2025.
Atraso de seis meses em relação ao plano original
Quando o consórcio reuniu seus membros para celebrar dez anos de existência, em setembro de 2025, a comunicação oficial era clara: a especificação completa do AV2 sairia até o fim daquele ano. O cronograma escorregou.
O projeto tem cinco anos de desenvolvimento e mais de 2.700 commits no software de referência. Em fevereiro de 2026, a AOMedia chegou a publicar um rascunho da especificação chamado “AV2 Bitstream & Decoding Process Specification”, com o documento AVM versão 13.0 disponível para desenvolvedores.
O material já trazia a sintaxe completa, processo de decodificação, navegador de sintaxe e notas de versão, mas continuava marcado como draft.

A página do repositório no GitHub ainda mantém o status de rascunho e informa que o trabalho segue rumo à publicação final da especificação AV2. O commit recente do AVM, porém, é o primeiro indicador concreto de que essa publicação tem data marcada.
O que o AV2 promete entregar
O foco técnico do AV2 está na compressão. A meta declarada da AOMedia, definida ainda em 2020, é reduzir em até 40% o consumo de banda em relação ao AV1, mantendo o mesmo nível de qualidade visual.
O Google, por meio do engenheiro Debargha Mukherjee, apresentou em novembro de 2025 um balanço técnico do projeto que confirmou esse alvo.
O grupo de trabalho também estabeleceu um limite para a complexidade do decodificador: não passar de duas vezes a área de silício exigida pelo AV1, justamente para manter o custo de hardware competitivo.
Entre as novidades técnicas do AV2 estão um deblocker generalizado que preserva mais detalhes, novos filtros como Guided Detail Filter e Cross-Component Sample Offset, síntese de film grain mais flexível, particionamento de blocos estendido e suporte nativo para vídeo multicamadas e estéreo. Também há novas ferramentas de transformação batizadas de IST, TCQ, ATC e CCTX.
Em uma apresentação técnica conduzida por Andrey Norkin, da Netflix e do grupo de codificação da AOM, a aliança destacou a filosofia do projeto:
“Todas as ferramentas do AV2 foram validadas para eficiência em hardware, e o próximo foco do grupo está na otimização do encoder e em possíveis extensões para profundidades de bits maiores e perfis assistidos por IA.”
Apesar do uso de algumas técnicas orientadas por dados, Mukherjee classificou o AV2 como um codec “híbrido convencional”, não um codec de inteligência artificial.
Cenários de uso e diferenças para o AV1
O AV2 herda do antecessor o modelo livre de royalties para membros da AOMedia, que inclui Google, Apple, Netflix, Amazon, Intel, NVIDIA, Microsoft, Samsung e dezenas de outras empresas. A diferença está no escopo: o novo codec foi pensado desde o início para cenários que estão crescendo em tráfego.
A lista oficial inclui suporte aprimorado para aplicações de AR e VR, entrega de programas em tela dividida (split-screen), melhor tratamento de screen content (capturas de tela, jogos, interfaces) e uma faixa de qualidade visual mais ampla, cobrindo desde baixíssimo bitrate até produção em 8K.
| Característica | AV1 | AV2 |
|---|---|---|
| Lançamento da spec | Março de 2018 | 29 de maio de 2026 (previsto) |
| Ganho de compressão vs. antecessor | Até 50% sobre H.264 | Até 40% sobre AV1 |
| Royalties | Livre (para membros AOM) | Livre (para membros AOM) |
| Foco principal | Streaming HD/4K | AR/VR, 8K, screen content, split-screen |
| Complexidade do decoder | Base | Até 2x maior que AV1 |
| Status atual | 1.0.0 Errata 1 (jan/2019) | Rascunho v13 (fev/2026) |
A pesquisa interna da AOMedia divulgada em 2025 apontou que 53% dos membros pretendem implementar o AV2 nos 12 meses seguintes à padronização, e 88% planejam fazê-lo dentro de dois anos. YouTube e Facebook são apontados como prováveis primeiros adotantes em larga escala, já que controlam tanto o conteúdo quanto o ambiente de reprodução.
Adoção em hardware deve levar anos
Mesmo com a especificação finalizada, a chegada do AV2 aos dispositivos do consumidor não é imediata. O histórico do AV1 ilustra bem a curva: lançado em 2018, o codec só ganhou aceleração via hardware em chips da Intel com a linha Tiger Lake, em 2020, e a Apple, fundadora da AOMedia, esperou até o fim de 2023 para habilitar decodificação em hardware no AV1, cinco anos depois da estreia.
Para o AV2, analistas projetam um intervalo de 18 a 36 meses entre a finalização da spec e o suporte em GPUs e SoCs móveis. Isso colocaria a aceleração por hardware em chips comerciais entre 2027 e 2029, com penetração relevante no mercado de massa a partir de 2028 em diante.
O obstáculo principal está na cadeia de fabricantes de silício. Qualcomm, MediaTek e Apple investiram pesado em VVC (H.266), o que tende a desacelerar a integração rápida do AV2 em smartphones. Smart TVs e dongles de streaming podem se mover mais rapidamente, dependendo da pressão de plataformas como Netflix e YouTube.
Há ainda a questão das plataformas premium. Streaming pago de filmes e séries só costuma migrar para um codec novo depois que sistemas de DRM como Widevine, PlayReady e FairPlay estão totalmente integrados. Foi assim com o AV1 e deve se repetir com o AV2, criando o padrão de adoção em duas ondas: conteúdo gerado por usuário (UGC) primeiro, conteúdo premium anos depois.
Próximos capítulos
Com a especificação caminhando para a versão 1.0, o trabalho da AOMedia agora se concentra em três frentes: otimização do encoder, possíveis extensões para profundidades de bits superiores a 10 bits e perfis assistidos por IA que podem entrar em versões posteriores.
A VideoLAN, organização por trás do VLC, já anunciou o desenvolvimento do dav2d, decodificador open source do AV2 que segue a mesma linha do bem-sucedido dav1d.
Esse tipo de implementação tende a ser o primeiro caminho de teste em desktops e laptops, antes que o suporte em hardware se popularize.
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Por que a data de 29 de maio importa
A confirmação da especificação 1.0 é o gatilho que destrava a corrida real do AV2. Sem ela, fabricantes de chip não conseguem fechar designs definitivos, plataformas de streaming não validam pipelines de encoding em produção e desenvolvedores de player ficam presos a rascunhos que podem mudar a qualquer momento.
A data também tem peso simbólico. O AV1 levou quase oito anos entre o lançamento da spec e a chegada a uma maioria razoável de dispositivos. Se o AV2 seguir trajetória parecida, o vídeo na web em 2030 deve depender bastante dele, mas o caminho até lá envolve disputas concretas com VVC, custos de licenciamento de patentes de terceiros e a paciência de uma indústria que ainda está terminando de absorver o codec anterior.
Por enquanto, a comunidade que acompanha o desenvolvimento pode conferir o progresso no repositório oficial do AVM e no repositório da especificação, ambos mantidos pela AOMedia no GitHub.
Fonte(s): AOMedia (GitHub) e AOMedia – Repositório da especificação AV2 (GitHub)




