Um estudo publicado na revista científica Saúde Pública da Lancet revela que os brasileiros estão vivendo mais, mas passam uma parte cada vez maior de suas vidas convivendo com doenças ou limitações de saúde. A pesquisa analisou dados de 204 países e territórios entre 1990 e 2023 e mostra que, no Brasil, o tempo médio vivido com problemas de saúde aumentou de 10,4 para 12,5 anos em um período de pouco mais de três décadas.
O crescimento representa um aumento de 2,1 anos, equivalente a cerca de 20%. Com esse resultado, o Brasil ocupa a 16ª posição entre os países com maior número de anos vividos em condições de saúde consideradas inadequadas.
Atualmente, a expectativa de vida do brasileiro é de aproximadamente 76 anos, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Apesar do aumento da longevidade, o estudo aponta que esse ganho não foi acompanhado pelo mesmo aumento do tempo vivido com boa saúde.
A pesquisa utilizou dados do Global Burden of Disease 2023, base de dados internacional que reúne indicadores de saúde de praticamente todos os países. Os investigadores calcularam o chamado “gap de morbilidade”, indicador que corresponde à diferença entre a esperança de vida total e a esperança de vida saudável, estimando quantos anos uma pessoa vive, em média, com doenças, limitações ou incapacidades.
Em 1990, essa lacuna no Brasil era de 10,4 anos, superior à média mundial da época, que era de 8,8 anos. Desde então, o número tem aumentado gradativamente, atingindo 11,2 anos em 2010 e 11,7 anos em 2020.
A única redução registada ocorreu em 2021, durante a pandemia de Covid-19, quando a diferença caiu para 11,4 anos. Segundo os pesquisadores, essa diminuição não representa uma melhoria na saúde da população, mas sim a redução simultânea da expectativa de vida e da expectativa de vida saudável causada pelos impactos da pandemia.
Nos anos seguintes, o indicador voltou a crescer de forma mais acelerada, atingindo 12,2 anos em 2022 e 12,5 anos em 2023, o maior nível da série histórica.
Para o endocrinologista Clayton Macedo, os resultados reforçam a necessidade de priorizar não só o aumento da expectativa de vida, mas também a qualidade dos anos vividos.
“Viver mais continua sendo uma das maiores conquistas da medicina. Mas a meta contemporânea precisa ser mais ambiciosa: viver mais com saúde, autonomia e capacidade funcional. O estudo mostra que o aumento da longevidade não foi acompanhado, na mesma proporção, do aumento dos anos vividos com plena saúde. Na minha área, isso chama a atenção para fatores como glicemia elevada, diabetes, excesso de peso e obesidade, que contribuem para doenças crônicas e perda progressiva de qualidade de vida”, afirmou.
Embora a pesquisa não detalhe as principais causas por país, aponta as condições que mais contribuem para a perda de qualidade de vida em todo o mundo. Entre eles estão os distúrbios musculoesqueléticos, especialmente a dor lombar; transtornos mentais como ansiedade e depressão; doenças relacionadas aos órgãos dos sentidos, como perda auditiva associada ao envelhecimento; lesões não intencionais, especialmente quedas; e outras doenças crónicas não transmissíveis.
Entre os principais fatores de risco identificados estão níveis elevados de glicemia em jejum, excesso de peso, desnutrição materno-infantil e tabagismo.
O estudo também comparou a disparidade de morbidade entre os países. Em 2023, as taxas mais elevadas foram registadas nos Estados Unidos (14 anos), Austrália (13,9 anos), Canadá (13,7 anos), Nova Zelândia (13,1 anos), Países Baixos e São Marino (12,9 anos), Suíça e Líbano (12,8 anos), Reino Unido e Porto Rico (12,7 anos).
No outro extremo da classificação estão Nauru (6,9 anos), Ilhas Salomão (7,3 anos), Laos (7,4 anos), Tuvalu (7,6 anos), Madagáscar (7,7 anos), Chade e Níger (7,8 anos), Sudão do Sul e Ilhas Marshall (7,9 anos) e Myanmar (8 anos).
Segundo os autores, este cenário não representa uma contradição. Os países com maior esperança de vida tendem a acumular mais anos de convivência com doenças crónicas precisamente porque as suas populações vivem mais. Em nações com menor longevidade, a diferença de morbilidade tende a ser menor porque a esperança de vida também é reduzida.
A pesquisa também destaca diferenças entre homens e mulheres. Em todo o mundo, as mulheres vivem mais, mas passam mais tempo convivendo com problemas de saúde. Em 2023, a diferença de morbidade feminina era de 12,1 anos, enquanto entre os homens a taxa era de 9,3 anos.
Os pesquisadores defendem que as políticas de saúde pública devem priorizar não apenas a redução da mortalidade, mas também a redução do tempo gasto com a doença. Entre as estratégias destacadas estão o reforço da prevenção, da reabilitação e dos cuidados de longa duração para melhorar a qualidade de vida da população.


