China torna ilegal demitir um funcionário para substituí-lo por IA

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Uma decisão do Tribunal Intermediário do Povo de Hangzhou estabeleceu que a demissão por IA configura prática ilegal na China. O caso, julgado no fim de abril, foi aberto depois que uma empresa de tecnologia chinesa reduziu em cerca de 40% o salário de um funcionário e o dispensou após a recusa em aceitar a contraproposta.

A decisão veio em meio a uma sequência de litígios envolvendo automação no país. O entendimento dos magistrados foi de que adotar automação por inteligência artificial para enxugar custos não justifica quebra unilateral de contrato de trabalho ou rebaixamento de cargo.

A leitura jurídica acontecem num momento peculiar em que governos pelo mundo começam a discutir os limites da automação no mercado de trabalho. Empresas chinesas vinham testando a hipótese de usar IA como pretexto para corte de pessoal, e agora têm um precedente jurisprudencial que fecha essa porta.

Caso Zhou: corte salarial de 40% e demissão pela recusa

O processo foi aberto pelo trabalhador identificado como Zhou, responsável por uma função de garantia de qualidade em uma empresa de tecnologia em Hangzhou. A função consistia em verificar frases geradas por modelos de IA, justamente o tipo de trabalho que a própria automação tende a substituir.

A empresa argumentou que o cargo havia se tornado redundante com a evolução dos sistemas internos e ofereceu uma reassignação com salário inferior. O valor caiu de 25.000 yuans (cerca de R$ 18.250 na cotação atual de R$ 0,73 por yuan) para 15.000 yuans (R$ 10.950), corte de cerca de 40% sem mudança equivalente nas atribuições.

Zhou recusou a proposta e foi demitido… Entrou com pedido de arbitragem trabalhista, venceu, e a empresa contestou em primeira instância no Tribunal Distrital de Yuhang. A decisão foi mantida e, na apelação, o Tribunal Intermediário de Hangzhou confirmou que o desligamento foi ilegal e determinou indenização ao trabalhador.

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Divulgação/Handout

“Empregadores não podem transferir custos operacionais aos empregados”

A definição mais incisiva do tribunal apareceu no documento de 28 de abril, em que a corte consolidou seu entendimento sobre disputas trabalhistas envolvendo IA:

“Empregadores estão proibidos de transferir custos operacionais aos empregados.”

O complemento publicado pelo próprio tribunal aprofunda o raciocínio. Segundo a corte, a tecnologia de IA pode ser usada para melhorar a eficiência corporativa e até para liberar trabalho humano, mas isso não autoriza redução unilateral de salário ou rescisão de contrato.

A juíza relatora apontou que a justificativa apresentada pela empresa não se enquadrava nas hipóteses legais que autorizam demissão na China, como crise financeira, dificuldade operacional ou impossibilidade material de execução do contrato. Adotar IA é uma escolha de negócio, não uma força externa imprevista, e por isso não pode ser usada como pretexto.

Wang Tianyu, pesquisador da Academia Chinesa de Ciências Sociais, resumiu a leitura ao jornal estatal Xinhua ao afirmar que o avanço tecnológico pode ser irreversível, mas não está acima do arcabouço legal.

Não é o primeiro precedente na China

A decisão de Hangzhou foi a mais comentada por consolidar uma série de princípios em texto único, mas não inaugurou o entendimento. Em 2025, um trabalhador de mapeamento de dados em Pequim havia ganho via arbitragem após ser demitido sob a mesma justificativa.

A banca de árbitros entendeu, à época, que a transição para IA era escolha empresarial, e não evento incontornável que autorizaria a empresa a abrir mão do contrato de trabalho. A diferença prática agora é o peso jurisprudencial: uma corte intermediária consolidando o tema cria parâmetro replicável em decisões futuras em todo o país.

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A questão ainda está conectada ao arcabouço civil-law chinês, distinto do sistema de common law dos Estados Unidos e Reino Unido. A jurisprudência não vincula juízes da mesma forma, mas a publicação de “casos típicos” pelo próprio tribunal indica orientação clara para tribunais de instâncias inferiores.

ComparativoChina (Hangzhou, 2026)Estados Unidos (2026)
Demissão direta por substituição por IAConsiderada ilegalPermitida na maioria dos estados
Necessidade de realocaçãoSim, com salário compatívelNão exigida
Doutrina dominanteCivil law, com jurisprudência orientadoraEmployment-at-will

Leia também:

Demissões por IA seguem em alta nos EUA

Enquanto a Justiça chinesa frea o uso de IA como argumento para corte de pessoal, o cenário americano segue em direção oposta. Apenas neste ano, cerca de 80 mil profissionais de tecnologia perderam o emprego nos Estados Unidos, com a inteligência artificial citada como motivo recorrente nos comunicados internos das empresas.

A Meta anunciou em maio o corte de 8 mil postos. Mark Zuckerberg afirmou em comunicação interna que a decisão se justifica pelos gastos com infraestrutura de IA, e não por ganhos de produtividade gerados pela tecnologia.

Sam Altman, CEO da OpenAI, chegou a sugerir publicamente que parte das companhias usa IA como capa para decisões impopulares de redução de quadro, prática que ele chamou de “AI washing”.

A discrepância entre os dois sistemas jurídicos abre uma janela de discussão para outros países. A pressão por regulamentação trabalhista da automação tende a crescer conforme as demissões em massa se acumulam, e o precedente de Hangzhou serve como referência concreta para legisladores de mercados em desenvolvimento.

Fonte(s): Bloomberg

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