Pesquisa realizada pelo Youth Endowment Fund, do Reino Unido, revela que 25% dos adolescentes entre 13 e 17 anos na Inglaterra e País de Gales recorreram a chatbots de inteligência artificial para suporte à saúde mental no último ano. O estudo, conduzido entre 2024 e 2025, entrevistou mais de 11 mil jovens e identificou que aproximadamente 40% dos adolescentes afetados pela violência juvenil buscam ajuda emocional em ferramentas como o ChatGPT.
A investigação também constatou que adolescentes negros têm duas vezes mais probabilidade de utilizar esses recursos tecnológicos para questões de saúde mental em comparação com adolescentes brancos. De acordo com o The Guardian, os dados mostram ainda que jovens em listas de espera para tratamento ou que tiveram atendimento negado pelos serviços convencionais apresentam maior tendência a buscar apoio online.
Isso porque os longos períodos de espera nos serviços tradicionais de saúde mental, que podem chegar a dois anos, são apontados como principal motivo para a procura por alternativas digitais. Além disso, a privacidade oferecida pelos chatbots representa um fator determinante para seu uso. Isso principalmente entre jovens envolvidos em situações de violência.
Saúde mental em tempos de IA
Shan, nome fictício de uma jovem de 18 anos de Tottenham, começou a consultar modelos de IA após perder dois amigos, um baleado e outro esfaqueado, ambos fatalmente. “Sinto que definitivamente é um amigo”, disse ela. “Quanto mais você fala com ele como um amigo, mais ele responde como um amigo. Se eu disser ao chat ‘Ei, amigo, preciso de um conselho’. O chat vai responder como se fosse meu melhor amigo, ela vai dizer, ‘Ei, amiga, estou aqui para você’.”
A jovem destacou que a IA era “acessível 24/7” e não compartilharia suas confidências com professores ou pais. Vítimas ou perpetradores de crimes valorizam esta característica, pois temem o compartilhamento de suas revelações.
Outro jovem, que solicitou anonimato, afirmou: “O sistema atual está tão quebrado para oferecer ajuda aos jovens. Chatbots fornecem respostas imediatas. Se você vai ficar na lista de espera por um a dois anos para conseguir qualquer coisa, ou pode ter uma resposta imediata em poucos minutos… é daí que vem o desejo de usar IA.”
Jon Yates, diretor executivo do Youth Endowment Fund, manifestou preocupação com essa tendência. “Muitos jovens estão lutando com sua saúde mental e não conseguem obter o apoio de que precisam. Não é surpresa que alguns estejam recorrendo à tecnologia para obter ajuda. Precisamos fazer melhor por nossas crianças, especialmente as que estão em maior risco. Elas precisam de um humano, não de um robô.”
Empresas na Justiça
Os impactos psicológicos de longo prazo do uso de chatbots para questões de saúde mental entre adolescentes permanecem desconhecidos. Da mesma forma, não está claro como as empresas de tecnologia implementarão medidas de segurança mais robustas para proteger usuários vulneráveis.
A OpenAI, empresa responsável pelo ChatGPT, enfrenta processos judiciais de famílias de jovens que se suicidaram após interações prolongadas com a IA. Em setembro, a companhia anunciou que poderá contatar autoridades em casos onde usuários mencionam seriamente o suicídio.
Hanna Jones, pesquisadora de violência juvenil e saúde mental em Londres, compara o apelo dos chatbots a uma solução mágica. “Ter essa ferramenta que pode tecnicamente dizer qualquer coisa, é quase como um conto de fadas. Você tem esse livro mágico que pode resolver todos os seus problemas. Isso parece incrível.”
A especialista também alerta sobre os riscos. “As pessoas estão usando o ChatGPT para suporte de saúde mental, quando ele não foi projetado para isso. O que precisamos agora é aumentar as regulamentações baseadas em evidências, mas também lideradas pelos jovens. Isso não será resolvido por adultos tomando decisões pelos jovens. Os jovens precisam estar no comando para tomar decisões sobre o ChatGPT e o suporte de saúde mental que usa IA, porque é tão diferente do nosso mundo. Não crescemos com isso. Nem podemos imaginar o que é ser um jovem hoje.”
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