Elon Musk anunciou no domingo que a SpaceX mudou seu foco de colonizar Marte para construir uma “cidade autossustentável” na Lua, em uma guinada estratégica que pode ser alcançada em menos de 10 anos. A declaração foi feita através da rede social X e marca uma reviravolta no planejamento da empresa espacial, que desde sua fundação em 2002 teve Marte como destino principal.
O bilionário afirmou que, embora a SpaceX ainda pretenda iniciar a construção de uma cidade marciana em cinco a sete anos, “a prioridade é garantir o futuro da civilização e a Lua é mais rápida”. A mudança de planos reflete tanto questões práticas quanto a crescente competição espacial com empresas rivais e potências como a China.
Por que a Lua virou prioridade
Musk justificou a mudança com argumentos logísticos convincentes. Segundo ele, viagens para Marte só são possíveis quando os planetas se alinham a cada 26 meses, com seis meses de duração cada trajeto. Já missões lunares podem ser lançadas a cada 10 dias, com apenas dois dias de viagem, permitindo iterações muito mais rápidas no desenvolvimento da cidade lunar.
Comparação Lua vs. Marte:
| Destino | Frequência de Lançamento | Tempo de Viagem | Tempo Estimado para Cidade |
|---|---|---|---|
| Lua | A cada 10 dias | 2 dias | Menos de 10 anos |
| Marte | A cada 26 meses | 6 meses | Mais de 20 anos |
A declaração contrasta drasticamente com posicionamentos anteriores do empresário. Em janeiro do ano passado, Musk havia dito categoricamente: “Não, vamos direto para Marte. A Lua é uma distração”. Agora, a lua deixou de ser obstáculo para se tornar o objetivo central da SpaceX no curto prazo.
Leia mais:
- NASA usará iPhone em missão lunar Artemis
- Avanço chinês em bateria térmica promete transformar defesa e espaço
- Starlink atinge 1 milhão de assinantes no Brasil
Corrida espacial bilionária esquenta
A mudança de estratégia coincide com a intensificação da competição entre SpaceX e Blue Origin, empresa de Jeff Bezos, pela construção do módulo lunar da missão Artemis III da NASA. O contrato, avaliado em quase 3 bilhões de dólares, colocará astronautas na superfície lunar pela primeira vez em mais de 50 anos, previsto para 2028.
A Blue Origin anunciou recentemente que pausará seus voos de turismo espacial por dois anos para focar no desenvolvimento de capacidades lunares. A empresa já está preparando seu módulo de carga Blue Moon Mark 1 para o primeiro voo de teste, competindo diretamente com o Starship HLS da SpaceX, que enfrenta atrasos significativos no desenvolvimento.
Histórico de promessas não cumpridas
A reorientação para a Lua também serve para encobrir o fato de que Musk não conseguiu cumprir suas ambiciosas promessas sobre Marte. Em 2020, ele disse estar “altamente confiante” de que a SpaceX levaria humanos ao planeta vermelho até 2026. A empresa planejava enviar sua primeira missão não tripulada a Marte este ano, mas o foguete Starship V3 necessário ainda nem estreou.
Linha do tempo das previsões de Musk para Marte:
- 2016: Primeira missão humana em 2024
- 2017: Missões não tripuladas em 2022
- 2020: Humanos em Marte até 2026
- 2025: Missão não tripulada este ano (não concretizada)
Ao longo dos anos, Musk estabeleceu diversos prazos que nunca se concretizaram. A realidade técnica finalmente alcançou as previsões otimistas do bilionário.
Inteligência artificial e visão espacial
Outro fator que pode ter influenciado a mudança é a recente fusão da SpaceX com a xAI, empresa de inteligência artificial também comandada por Musk, avaliada em 250 bilhões de dólares. O empresário tem falado cada vez mais sobre construir centros de dados orbitais, que seriam mais eficientes energeticamente que instalações terrestres.
Samsung poderá desenvolver modem 6G para Starlink a pedido de Elon Musk
A Lua oferece recursos valiosos para essa visão, incluindo oxigênio e silício. Musk tem mencionado frequentemente a construção de um “propulsor de massa” lunar – um mecanismo tipo catapulta que poderia mover materiais eficientemente para o espaço e permitir a construção de grandes estruturas orbitais, fábricas espaciais ou fazendas solares.
Tensão com a China e a NASA
Os Estados Unidos enfrentam intensa competição da China para retornar humanos à Lua nesta década. Nenhum ser humano visitou a superfície lunar desde a missão Apollo 17 em 1972. A China estabeleceu 2030 como meta para seu próprio pouso tripulado, aumentando a pressão sobre empresas americanas.
SpaceX ultrapassa marca de 10 mil satélites Starlink em órbita da Terra
A NASA planeja enviar quatro astronautas ao redor da Lua na missão Artemis II ainda este ano, marcando o primeiro voo tripulado em espaço profundo em mais de 50 anos. A SpaceX é contratada essencial do programa Artemis, embora Musk tenha revelado que a NASA representa menos de 5% da receita da empresa este ano, com a maioria vindo do sistema comercial Starlink.
O que muda para a exploração espacial
Para defensores de Marte, a mudança de Musk representa uma pílula amarga. Durante anos, o bilionário foi a única figura que não apenas sonhava com colonizar o planeta vermelho, mas efetivamente construía o hardware e os recursos financeiros para tornar isso realidade. Marte oferece ambiente mais favorável para assentamento humano no longo prazo, com atmosfera fina, gelo de água e metano.
Mas esses sonhos foram adiados à medida que Musk cedeu a uma realidade dura: a Lua pode ser difícil, mas é muito mais fácil de desenvolver que Marte. A missão da SpaceX permanece “estender a consciência e a vida como a conhecemos até as estrelas”, mas o caminho para chegar lá mudou definitivamente rumo ao nosso satélite natural.
Fonte: Reuters



