O governo dos Estados Unidos determinou que toda a comunicação do Departamento de Estado volte a usar Times New Roman, encerrando o período iniciado em 2023 no qual a Calibri era adotada por motivos de acessibilidade.
A decisão, assinada pelo secretário de Estado Marco Rubio, foi interpretada como parte de uma série de ações da administração Trump para desmontar políticas de diversidade, equidade e inclusão (DEI) implementadas na gestão anterior.
Documentos internos obtidos por veículos como New York Times, BBC e TechCrunch mostram que Rubio classificou a adoção da Calibri como um gasto desnecessário e alinhado a iniciativas que, segundo ele, prejudicaram a imagem do departamento.
A partir de 10 de dezembro, todos os memorandos, relatórios e comunicações diplomáticas passam a usar exclusivamente a fonte serifada criada em 1931.
Como a Calibri entrou no centro da disputa
A Calibri se tornou fonte padrão do Microsoft Office em 2007 e, por isso, seu uso se espalhou por governos, empresas e mídia.
Em 2023, Antony Blinken, então secretário de Estado do governo Biden, formalizou a adoção da tipografia em documentos oficiais citando melhorias de leitura para pessoas com deficiência visual, usuários de leitores de tela e indivíduos com dislexia.

A escolha não foi unânime à época. Parte do corpo diplomático considerou a mudança abrupta e questionou seu impacto real no dia a dia. Ainda assim, a decisão marcou um movimento para atualizar práticas internas e modernizar a comunicação.
Por que Rubio derrubou a Calibri
O novo memorando classifica a Calibri como um símbolo de políticas DEI que Rubio considera excessivas ou ineficazes.
Ele argumentou que a retomada da Times New Roman devolveria decoro, sobriedade e uniformidade às comunicações, além de reforçar a percepção de formalidade esperada da diplomacia norte-americana.
Em trecho acessado pelo New York Times, Rubio afirmou que a Calibri “não é o exemplo mais radical ou dispendioso” entre as iniciativas que ele pretende reverter, mas mesmo assim teria contribuído para a “degradação” da correspondência institucional.

Um porta-voz do Departamento de Estado declarou à BBC que a orientação dialoga com a meta da Casa Branca de alinhar todas as comunicações a um padrão único e profissional, reforçando a leitura de que decisões estéticas também se tornaram instrumentos de disputa política no atual governo.
A visão do criador da Calibri
Lucas de Groot, designer holandês responsável pela Calibri, reagiu à notícia com surpresa. Em entrevista à BBC Newshour, descreveu a mudança como “triste e hilária”, lembrando que sua fonte foi desenvolvida justamente para facilitar a leitura em telas de alta resolução. Segundo ele, essa foi a razão de a Microsoft ter aposentado a Times New Roman como padrão do Office em 2007.
A fala do designer aparece no centro de um debate mais amplo sobre como escolhas de tipografia carregam valores culturais e históricos. Fontes com serifa, como a Times New Roman, são associadas a tradições jurídicas e burocráticas, enquanto modelos sem serifa se aproximam da estética digital contemporânea.

No momento em que comenta a polêmica, De Groot afirma que voltar à Times New Roman significa recuperar um estilo que já foi superado em diversos meios de comunicação, inclusive pelo próprio jornal The New York Times, que abandonou a fonte há quase vinte anos.
Debate que ultrapassa a estética
A disputa entre Times New Roman e Calibri evidencia como decisões aparentemente técnicas se tornam marcadores ideológicos dentro do governo.
A administração Trump vem revisando políticas ligadas à diversidade desde o início do mandato e, recentemente, alterou até feriados com entrada gratuita em parques nacionais, retirando datas ligadas à história negra americana e incluindo o aniversário do presidente.
O caso da tipografia ilustra outra camada desse processo: o que poderia ser apenas uma atualização de estilo acabou ganhando contornos de embate político, especialmente porque envolve acessibilidade, tema que perdeu espaço dentro do Departamento de Estado desde a aposentadoria do escritório DEI criado na gestão anterior.
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O que essa mudança revela sobre o momento político dos EUA
A decisão de Rubio escancara o clima de revisão institucional promovido pelo governo Trump e mostra como detalhes que antes passavam despercebidos passaram a carregar interpretações ideológicas.
A disputa tipográfica expõe como a comunicação oficial se tornou parte de um projeto de unificação estética alinhado à agenda política atual, enquanto reacende discussões sobre acessibilidade, modernização e tradição dentro da máquina pública.
A transição, vista de longe, pode parecer apenas uma troca de fonte. Dentro do contexto político recente, porém, indica a forma como cada decisão administrativa está sendo reinterpretada como gesto simbólico.
A tipografia, que já definiu padrões de leitura e identidade visual por décadas, volta ao centro das atenções em um cenário de mudanças aceleradas e tensões culturais cada vez mais explícitas.
Fonte: BBC



